
Quarta-feira, Agosto 11, 2004
Morte do Leiteiro - Carlos Drummond de Andrade
Há pouco leite no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há muita sede no país,
é preciso entregá -lo cedo.
Há no país uma legenda,
que ladrão se mata com tiro.
Então o moço que é leiteiro
de madrugada com sua lata
sai correndo e distribuindo
leite bom pra gente ruim.
Sua lata, suas garrafas,
e seus sapatos de borracha
vão dizendo aos homens no sono
que alguém acordou cedinho
e veio do último subúrbio
trazer o leite mais frio
e mais alvo da melhor vaca
para todos criarem força
na luta brava da cidade.
Na mão a garrafa branca
não tem tempo de dizer
as coisas que lhe atribuo nem o moço leiteiro ignaro,
morador na Rua Namur,
empregado no entreposto,
com 21 anos de idade,
sabe lá o que seja impulso
de humana compreensão.
E já que tem pressa, o corpo
vai deixando à beira das casas
uma apenas mercadoria.
E como a porta dos fundos
também escondesse gente
que aspira ao pouco de leite
disponível em nosso tempo,
avancemos por esse beco,
peguemos o corredor,
depositemos o litro...
Sem fazer barulho, é claro,
que barulho nada resolve.
Meu leiteiro tão sutil,
de passo maneiro e leve,
antes desliza que marcha.
É certo que algum rumor
sempre se faz: passo errado,
vaso de flor no caminho,
cão latindo por princípio,
ou um gato quizilento.
E há sempre um senhor que acorda,
resmunga e torna a dormir.
Mas este acordou em pânico
(ladrões infestam o bairro),
não quis saber de mais nada.
O revólver da gaveta
saltou para sua mão.
Ladrão? se pega com tiro.
Os tiros na madrugada
liquidaram meu leiteiro.
Se era noivo, se era virgem,
se era alegre, se era bom,
não sei,
é tarde para saber.
Mas o homem perdeu o sono
e todo, e foge pra rua.
Meu Deus, matei um inocente.
Bala que mata gatuno
também serve pra furtar
a vida de nosso irmão.
Quem quiser que chame médico,
polícia não bota a mão
neste filho de meu pai.
Está salva a propriedade.
A noite geral prossegue,
a manhã custa a chegar,
mas o leiteiro
estatelado, ao relento,
perdeu a pressa que tinha.
Da garrafa estilhaçada,
no ladrilho já sereno
escorre uma coisa espessa
que é leite, sangue... não sei.
Por entre objetos confusos,
mal redimidos da noite,
duas cores se procuram,
suavemente se tocam,
amorosamente se enlaçam,
formando um terceiro tom
a que chamamos aurora.

Domingo, Junho 20, 2004
Altos e baixos na barafunda do governo - Villas-Bôas Corrêa
18.06.2004 | No ano, seis meses e 18 dias do mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, nosso itinerário passou por períodos excitantes de contradições, desde a fase inicial de esperança e euforia às decepções que pouco a pouco trouxeram as nuvens carregadas de dúvidas e frustrações.
De uns dias ou semanas para cá entramos na fase embirutada da confusão, com a profusão das análises dos especialistas batendo cabeça, na barafunda de previsões róseas que anunciam a retomada lenta, mas firme na cadência ascendente do desenvolvimento, com o sinal trocado de índices que nos apontam para a realidade áspera do dia-a-dia do povão, no poço fundo das desigualdades sociais, tão paparicado nas três décadas de atividade do Partido dos Trabalhadores e nas quatro campanhas eleitorais de Lula.
Para mal dos nossos pecados de crédulos incuráveis, nem os números se entendem. Nada se encaixa no pandemônio de hospício. Mal refeitos das emoções da confraternização junina dos 35 ministros e secretários, disfarçados de matutos no forró da Granja do Torto, patrocinada pelo presidente para apagar intrigas e fuxicos que perturbavam a serenidade da família palaciana, e a imprensa despeja a balbúrdia de estatísticas que parecem mais desavindas do que as comadres das velhas anedotas.
Como encaixar no quadro dos êxitos modestos do governo a bofetada nos nossos brios de país civilizado do aumento de 6% do grupo dos milionários no Brasil de 2002 para 2003, no ano inaugural do mandato do presidente que jurou lutar contra o indecente desequilíbrio entre os extremos da nossa pirâmide social? A fortuna do seleto grupo que nasceu virado para a lua cheia e ostenta a riqueza de US$ 1,75 trilhão, com o aumento das gorduras de 2,94% em um ano, recepcionou mais cinco mil milionários no clube da opulência.
Para continuar nas alturas, a taxa de juros do país que embala na retomada do crescimento, empacou há três meses no índice de 16%, com que acaba de nos brindar, embrulhado no cobertor das cautelas, a sapiência do Comitê de Política Econômica (Copom) do Banco Central, presidido pelo companheiro Henrique Meirelles, uma alma sensível às dificuldades dos que sobrevivem com o salário mínimo, a cesta básica e o cartão para os saques do Fome Zero.
Rejubila-se o governo, sopra forte os sons graves na tuba e comemora sucessos como a alta do Produto Interno Bruto para impressionar a sociedade que acompanha, como torcedor fanático, as evoluções do PIB. As vendas do comércio varejista, segundo os índices do IBGE, crescem pelo sexto mês consecutivo, empurradas pelas facilidades do crédito, com juros que encalacram os que exageram na dose. No salto de maio, subiram 9,9% em relação ao mesmo período de 2003.
No mar da bonança, o comércio anuncia a geração de novos empregos, as exportações celebram recordes, engolindo o susto da recusa pela China da soja da nossa implosão agrícola, suspeita de abusos nos agrotóxicos.
No contraponto, o Tribunal de Contas da União (TCU) aprovou as contas do governo, relativas ao primeiro ano do atual governo, por unanimidade manchada por 22 ressalvas e dez recomendações que incomodaram o presidente Lula e os ministros diretamente censurados. Alguns pitos são de enrubescer ministro, como a constatação de que o governo investiu em saúde menos 4,2% do que a lei determina. Mesquinharia reincidente de vários ministros, que não conseguem gastar a escassa verba disponível ou porque não tenham planos a executar ou simplesmente porque não trabalham.
É muito provável que teremos que conviver com o modelo de governo a que o presidente Lula nos vem habituando, aos trancos e solavancos, na estrada de curvas, buracos e trechos de razoável pavimentação do ano e meio e quebrados em que carimbou a sua marca.
As reformas prioritárias para valer foram desossadas nos entendimentos parlamentares e se arrastam no Congresso, não se sabe mais se chegarão ao fim da linha. Os remendos que desfiguram a reforma judiciária são os mesmos pregados na reforma política.
Restam fiapos de esperanças de uma varredura no Ministério, que ganharia fôlego e músculo se reduzido à metade ou pelo menos perdesse uma dezena de hóspedes inúteis, que sobram na superposição de funções ou na comprovada incompetência administrativa.
É o perfil do governo com que nos teremos que conformar. Desigual, cambaio, alternando bons desempenhos individuais com fracassos que se antecipam no desenho do mapa em cores variadas.
Para agüentar o peso morto dos dispensáveis, só o forró do Torto não basta. É preciso dar asas à imaginação e programar novos estímulos festivos. Este ano no Natal, por exemplo. Com Papai Noel e seu saco de presentes. Ano que vem, no carnaval. Com Momo, fantasias, confete, serpentina.

Sexta-feira, Junho 18, 2004
Tragédia Brasileira - Manuel Bandeira
Misael, funcionário da Fazenda, com 63 anos de idade.
Conheceu Maria Elvira na Lapa - prostituída, com sífilis, dermite nos dedos, uma aliança empenhada e o dentes em petição de miséria.
Misael tirou Maria Elvira da vida, instalou-a num sobrado no Estácio, pagou médico, dentista, manicura... Dava tudo quanto ela queria.
Quando Maria Elvira se apanhou de boca bonita, arranjou logo um namorado.
Misael não queria escândalo. Podia dar uma surra, um tiro, uma facada. Não fez nada disso: mudou de casa.
Viveram três anos assim.
Toda vez que Maria Elvira arranjava namorado, Misael mudava de casa.
Os amantes moraram no Estácio, Rocha, Catete, Rua General Pedra, Olaria, Ramos, Bonsucesso, Vila Isabel, Rua Marquês de Sapucaí, Niterói, Encantado, Rua Clapp, outra vez no Estácio, Todos os Santos, Catumbi, Lavradio, Boca do Mato, Inválidos...
Por fim na Rua da Constituição, onde Misael, privado de sentidos e de inteligência, matou-a com seis tiros, e a polícia foi encontrá-la caída em decúbito dorsal, vestida de organdi azul.
1933.

Domingo, Junho 13, 2004
pensando no sentido de viver
Uma questão filosófica que mais diverge os pensadores é a essência da vida. O que representa viver? Qual o real objetivo da pessoa enquanto matéria viva? Qual a finalidade de se manter vivo? Pensando bastante sobre o assunto, você encontra que a razão de estarmos vivos é... manter a espécie humana. Mas manter a espécie para quê? Continuar o ciclo de nascimento, crescimento, reprodução e morte. Isso é o que aprendemos na escola, que a vida é composta por esses quatro fatores. Mas além da questão biológica da vida, será que há alguma importância vital na vida?
Parece redundância fazermos essa pergunta, mas não podemos deixar de fazê-la, afinal, aparentemente, nossa vida só é uma sucessão de momentos que somados não representam absolutamente nada. Para quê ir à escola? Para estudar! Sim, mas para quê estudar? Para ter um emprego bom! Sim, mas para quê ter um emprego que lhe renda dinheiro? Para acumular uma certa quantidade de dinheiro que cubra as necessidades de sua família! Sim, mas para quê ter uma família? Para gerar descendentes! Sim, mas para quê ter filhos se eles terão que fazer tudo o que você fez de novo? ...? ...?
Não seria mentira afirmar que a nossa existência é um aglomerado de dúvidas, e por que não, que nada explica nada, que nada tem sentido. A real busca da vida é se manter vivo o máximo de tempo possível e, com ajuda do pensamento capitalista aglomerador, conseguir o máximo de dinheiro para sua sobrevivência.
Impressionante como o sistema e suas ideologias mudam nossa perspectiva nisso tudo. Afinal, qual a importância de ter muito dinheiro se a pessoa
sempre viverá em uma redoma onde o seu império capitalista é aumentado ao passo que tornar-se-á cada vez mais perigoso mostrar o fruto do seu trabalho? Não tem sentido procurar o prazer de estar vivo na acumulação de capital. Pois a única coisa que compramos indiretamente com o dinheiro, não é nenhum sentimento bom, mas sim a infelicidade.
A busca incansável pelo capital corrói a base fundamental para a criação do estado de felicidade. Daí quando a pessoa finalmente faz a sua 'fortuna', não restará mais nenhum tijolo dessa base. A sua percepção de um mundo feliz será atrelada à posse de dinheiro. E sem isso, não haverá qualquer aspecto bom na vida.
Pensar qual razão de viver não traz nada. Logo, nossa existência só é explicada quando alcançamos um estado tal de espírito que nossa comunidade fútil ainda não tem. Ainda teremos que respeitar os outros não pelo que têm, ou onde moram, ou o que vestem. Acharemos o respeito no caráter de cada um, e no que acrescentarão na nossa efêmera existência.
ps: o
post sobre 'O Ritual do Corpo entre os Sonacirema' de Horace Minner é bem mais do que a descrição de uma tribo qualquer, invertam o nome 'sonacirema' e verão uma visão crítica da sociedade.
A farra do corporativismo parlamentar - Villas-Bôas Corrêa
11.06.2004 | Na raquítica semana útil de dois dias, terça e quarta-feira, com o feriado de quinta antecipando a revoada parlamentar rumo ao aconchego doméstico, o Senado não conseguiu concluir o pífio espetáculo mambembe para a aprovação da emenda partir que reduz o corte de vereadores, determinado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), em decisão que seguiu o critério da proporcionalidade com a população dos municípios.
No segundo ato, que deveria fechar o espetáculo, com a votação conclusiva e o encaminhamento à Câmara dos Deputados para a apoteose do corporativismo, os ânimos ferveram no bate-boca envolvendo diversos senadores e a sessão foi suspensa para que os prazos regimentais, desrespeitados na véspera, fossem obedecidos.
A ampla maioria, favorável à restrição dos cortes dos parceiros que garantem os votos nas suas zonas de influência, esbarrou na resistência dos que não se conformaram com o bis das espertezas. E adiaram a segunda votação para o mínimo de 15 dias úteis, como determina o regimento.
O começo da manobra foi auspicioso. Se fosse combinado com hora marcada por cronômetro, depois de complicados cálculos no computador, não teria dado tão certo, com a exatidão que protege as tramóias afortunadas ou amaldiçoa as transas azaradas: no mesmo dia em que a severidade veneranda do Senado, saltando os obstáculos dos prazos regimentais, aprovou em sessão relâmpago, por 51 votos contra 7, no primeiro turno de votação, a emenda parlamentar que anula a decisão moralizadora do Supremo Tribunal Federal (STF) que extingue 8.552 vagas de vereadores, pipocaram escândalos em várias câmaras municipais, talvez na excitação de estupenda vitória parcial.
Na mineira Uberlândia, vereadores foram pilhados com dotações indefensáveis a entidades privadas, que pagam com votos os saques no cofre da Viúva. Na Câmara Municipal do Rio, na forma do costume, cenas de pugilato entre vereadores pelas mais mesquinhas rixas. E por aí segue o corso da falta de compostura.
Gerada no ventre da Câmara dos Deputados, passou como corisco pelo plenário em primeira votação, no alvoroço dos que prelibavam a retribuição do favor com os votos dos cabos eleitorais que garantam a reeleição em 2006.
Francamente, esperava-se uma reação severa do pundonor dos ilustres senadores. Mas o corporativismo falou a linguagem que enterneceu os corações e garantiu a vidoca folgada de 5.062 vereadores, com poda de apenas 3.500 vagas nas gaiolas douradas das mordomias espalhadas por todos os municípios.
Sangrando na veia aberta dos brios feridos, o STF deu o troco na hora, em sessão administrativa extraordinária, convocada às pressas para manifestar o desagrado, que reabre as feridas do recente atrito entre os poderes, com a atitude desprimorosa do Congresso. Trata-se de revide sem corretivo, pois o Supremo, como é óbvio, reconhece a autonomia do Legislativo para emendar a Constituição. O STF reafirmou a sua posição que confronta com a acomodação interesseira das duas Casas do Congresso.
A cadeia da felicidade segue seu destino no emaranhado de contradições. A tradição da vereança como serviço gratuito prestado pelos eleitos à cidade na qual residem, trabalham e criam a família foi quebrada pela Redentora, que encaixou no pacote de abril do governo do presidente Ernesto Geisel, entre outras barbaridades, o salário para os que ocupam as cadeiras nas câmaras municipais.
Daí em diante, o trem da alegria disparou nos trilhos das mordomias, das vantagens, da orgia brasiliense do Congresso, que transformou os mandatos de senadores e deputados federais num dos melhores empregos do mundo.
A roda da fortuna gira em círculos. O exemplo federal é imediatamente copiado pelas assembléias legislativas estaduais e o modelo seguido pelas câmaras municipais.
Os resultados alarmantes podem ser vistos a olho nu. Só não atravessam a couraça de indiferença desdenhosa dos aquinhoados, que se lixam para o repúdio da sociedade, refletido nos índices recordistas de impopularidade apurados em todas as pesquisas.
Como não se fala mais na reforma política, adiada para as calendas, na rabada das prioridades dos interesse do governo, é perda de tempo criticar o que está aí e jogar as últimas fichas da esperança na improvável iniciativa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de encaminhar ao Congresso uma efetiva mudança ética na atividade parlamentar. Da revisão rigorosa da penca de privilégios, que infla a cada ano, desde a mudança da capital para Brasília e que se alastrou como praga por todo o país, como sorvedouro de verbas públicas em todos os níveis.
A faxina moralizadora é uma utopia, tão distante como as metas sociais do presidente Lula. Mas, se é inviável o retorno ao mandato gratuito ou com o pagamento de razoáveis diárias para as duas ou três sessões semanais de uma agenda decente, pelos menos, como uma satisfação ao país, Executivo, Judiciário e Legislativo deveriam entender-se para a montagem de um esquema de reformas de urgência inadiável dos três poderes, igualmente necessitados de uma revisão modernizadora.

Sábado, Junho 05, 2004
O Ritual do Corpo entre os Sonacirema - Horace Minner
Todas as culturas possuem uma configuração particular, um estilo. Freqüentemente, um determinado valor central ou uma forma de perceber o mundo deixam suas marcas em várias instituições da sociedade. Neste artigo, Horace Minner demonstra que “atitudes quanto ao corpo” têm influência generalizada em muitas instituições da sociedade Sonacirema. As crenças e práticas mágicas deste povo apresentam aspectos tão pouco usuais, que nos parece importante descrevê-las como exemplos dos extremos a que o comportamento humano pode chegar.
Embora, há mais de vinte anos, o Prof. Linton já tivesse chamado a atenção dos antropólogos para o complexo ritual dos Sonacirema, a cultura deste povo ainda é pouco compreendida. Eles constituem um grupo norte-americano que vive no território que se estende entre os Cree, do Canadá, aos Yaqui e Tarahumara, do México, e aos Caribe e Aruque, das Antilhas. Pouco se sabe quanto à sua origem, embora a tradição mística afirme que eles vieram do leste.
A cultura Sonacirema se caracteriza por uma economia de mercado altamente desenvolvida, que se beneficiou de um ‘habitat’ natural muito rico. Embora, nesta sociedade, a maior parte do tempo das pessoas seja devotada à ocupação econômica, uma grande porção dos frutos destes trabalhos, e uma considerável parte do dia, são despendidas em atividades rituais. O foco destas atividades é o corpo humano, cuja aparência e saúde constituem a preocupação dominante dentro do ‘ethos’ deste povo.
A crença fundamental subjacente a todo o sistema parece ser a de que o corpo humano é feio, e que sua tendência natural é a debilidade e a doença. Encarcerado em tal corpo, a única esperança do homem é evitar essas características, através do uso de poderosas influências do ritual e da cerimônia. Todo o grupo doméstico possui um ou mais santuários dedicados a tal propósito. Os indivíduos mais poderosos desta sociedade têm vários santuários em sua casa e, de fato, a opulência de uma moradia é freqüentemente aferida em termos da quantidade destes centros de rituais que abrigam.
O ponto focal do santuário é uma caixa ou arca embutida na parede. Nesta arca são guardados os inúmeros feitiços e porções mágicas, sem os quais nenhum nativo acredita que poderia viver. Tais feitiços e porções são obtidos de vários curandeiros cujos serviços devem ser retribuídos por meio de presentes substanciais. No entanto, o curandeiro não fornece as porções curativas para os fiéis, decidindo apenas os ingredientes que nela devem entrar, escrevendo-os, em seguida, em linguagem antiga e secreta. Tal escrita deve ser decifrada pelos herbanários, os quais, mediante outros presentes, fornecem o feitiço desejado.
O feitiço não é descartado depois de ter servido a seu propósito, mas colocado na caixa de mágica do santuário doméstico. Como esses materiais mágicos são específicos para certas doenças, e considerando-se que as doenças reais ou imaginárias deste povo são muitas, a caixa de mágica costuma estar sempre transbordando. Os pacotes mágicos são tão numerosos que as pessoas esquecem sua serventia original, e temem usá-los de novo. Embora os nativos tenham se mostrado vagos em relação a essa questão, só podemos concluir que a idéia subjacente ao costume de se guardar todos os velhos materiais mágicos é a de que sua presença na caixa de mágica, diante da qual os rituais do corpo são encenados, protegem de alguma forma o fiel.
Embaixo da caixa de mágica existe uma pequena fonte. Todo dia, cada membro da família, em sucessão, entra no santuário, curva a cabeça diante da caixa de mágica, mistura diferentes tipos de água sagrada na fonte e realiza um breve rito de ablução.
Na hierarquia dos profissionais da magia, e abaixo do curandeiro em termos de prestígio, estão os que são designados como ‘homens-da-boca-sagrada’. Os Sonaciremas nutrem um misto de horror pela e fascinação por suas bocas que chega às raias da patologia. Acredita-se que a condição da boca possui uma influência sobrenatural nas relações sociais. Assim, o ritual do corpo, cotidianamente realizado por todos, inclui um rito bucal. O rito consiste na introdução de um pequeno feixe de cerdas na boca, juntamente com uma espécie de creme mágico e, em seguida, na movimentação deste feixe, segundo uma série de gestos altamente ritualizados.
Além deste rito bucal privado, as pessoas procuram um ‘homem-da-boca-sagrada’, uma ou duas vezes por ano. No seu templo, este mago possui uma impressionante parafernália que consiste em uma variedade de perfuratrizes, furadores, sondas e agulhas. O uso destes objetos no exorcismo dos perigos da boca implica em uma quase e inacreditável tortura ritual do fiel e, usando as ferramentas citadas, alarga qualquer buraco que o uso tenha feito nos dentes. Se não se encontram buracos naturais nos dentes, grandes seções de um ou mais dentes são serrados, para que a substância sobrenatural possa ser aplicada. Na imaginação do fiel, o objetivo destas aplicações é deter o apodrecimento dos dentes e atrair amigos. O caráter extremamente sagrado e tradicional do mito fica evidente no fato de que os nativos retornam, todo ano, ao ‘homem-da-boca-sagrada’, embora seus dentes continuem a se deteriorar.
Os curandeiros possuem um templo imponente, o Latipsoh, em cada comunidade, de algum tamanho. As cerimônias mais elaboradas, necessárias para o tratamento de fiéis considerados muito doentes, só podem ser realizadas neste templo. Tais cerimônias envolvem não só o taumaturgo, mas também um grupo permanente de vestais que se movimentam nas câmaras do templo com uma roupa distintiva.
As cerimônias no Latipsoh podem chegar a ser tão violentas que surpreende o fato de que uma razoável proporção dos nativos realmente doentes, que entram no templo, consiga se curar. Crianças pequenas, cuja doutrinação é ainda incompleta, costumam resistir às tentativas de levá-los ao templo, alegando que ‘é aonde você vai para morrer’. Apesar disso, os doentes adultos não apenas desejam, como ficam ansiosos para submeter-se à prolongada purificação ritual, se possuem meios para tanto. Os guardiães do templo, não importa quão doente o suplicante esteja ou quão grave a emergência, não admitem o fiel se ele não puder dar um rico presente ao zelador. Mesmo depois que se conseguiu a admissão e se sobreviveu às cerimônias, os guardiães não permitem a saída do neófito até que este dê ainda outro presente.
O(a) suplicante, ao entrar no templo, é despido(a) de todas as suas roupas. Na vida cotidiana, os Sonacirema evitam a exposição de seus corpos quando das suas funções naturais. O banho e a excreção são realizados somente na intimidade do santuário doméstico, aonde são ritualizados, fazendo parte dos ritos corporais.
Poucos suplicantes no templo estão suficientemente bem para fazer qualquer coisa que não seja ficar deitado em suas camas duras. As cerimônias implicam desconforto e tortura. Com precisão ritual, as vestais acordam a cada madrugada seus miseráveis crentes, rolam-nos em seus leitos de dor, em quanto realizam abluções, cujos movimentos formalizados são objeto de treinamento intensivo das vestais. Em outros momentos, elas inserem varas mágicas na boca do fiel, ou obrigam-no a ingerir substâncias que são consideradas curativas. De tempos em tempos, os curandeiros vêm até seus fiéis e atiram agulhas, magicamente tratadas, em sua carne. O fato de que estas cerimônias do templo possam não curar, ou até matar o neófito, não diminui de modo algum a fé do povo nos curandeiros.
Para concluirmos, deve-se mencionar certas práticas que estão baseadas na estética nativa, mas que dependem da aversão generalizada ao corpo e às funções naturais. Há jejuns rituais para fazer pessoas gordas ficarem magras, e banquetes cerimoniais para fazer pessoas magras ficarem gordas. Outros ritos ainda são usados para tornar maiores os seios das mulheres, se eles são pequenos, e menores, se são grandes.
Nossa descrição da vida dos Sonaciremas certamente mostrou que eles são um povo obcecado pela magia. É difícil compreender como eles conseguiram sobreviver por tanto tempo, sob os pesados fardos que eles próprios se impuseram. Mas, mesmo costumes tão exóticos quanto estes, ganham seu verdadeiro sentido quando encarados a partir do esclarecimento feito por Malinivski:
“Olhando de cima e de longe, dos lugares seguros e elevados da civilização desenvolvida, é fácil ver toda a rudeza e a irrelevância da magia. Mas, sem este poder e este guia, o homem primitivo não poderia ter dominado as dificuldades práticas como fez, nem poderia o homem ter avançado até os mais altos estágios de civilização.”
In: “American Anthropologist, vol. 58 (1956), pp. 503 - 507.
“Body ritual among the Nacirema”
Sugestão da
Núbia

Domingo, Maio 30, 2004
pensando na busca pelo mesmo
Complementando o post sobre o
diferente, pensemos como uma sociedade esteriotipada é um campo fértil para o lucro. Hoje em dia, cada vez mais e mais pessoas procuram ser iguaizinhas. A mídia influencia o indivíduo a ser tão igual quanto um robô, e ter sempre por objetivo a beleza exterior em detrimento da interior. Na tevê, o que vemos é um desfile interminável de carinhas bonitas e corpos malhados. Já o talento para atuar, ou para apresentar um programa é deixado de lado. Qual o verdadeiro sentido de valorizar a forma e menosprezar o conteúdo? Formentar a indústria da beleza.
No ranking de cirurgias estéticas, o Brasil fica em segundo lugar, perdendo somente para os Estados Unidos. Em 1994, 100 mil cirurgias foram realizadas. Em dez anos, o número saltou para 400 mil. Para se ter uma idéia disso, em 2003, foram gastos R$11 bilhões em estética no Brasil. Uma infinidade de métodos foram inventados para os mortais ficarem com uma imagem melhor. Implante de silicone nos seios, nos glúteos, na panturrilha. Aumento dos lábios. Retirada de rugas. Liftings, peelings. Botóx. Lipoaspiração. Correção da orelha, do nariz. Implante capilar. Tudo criado para dar ao paciente uma falsa compreenção do belo.
Qual a importância social de ter seios fartos? O quê leva uma pessoa a pôr no seu organismo um corpo estranho só para ter de se adequar a uma 'imposição' social. Cirurgias pláticas são os melhores exemplos para percebermos a falta de aceitação do ser humano em comparação à sociedade. A única explicação aceitável para uma pessoa normal gastar dinheiro com tais procedimentos é a de servir de fantoche facilmente manipulável pelas correntes da beleza. Por que disfaçar a velhice se ela traz a sabedoria? O botóx foi criado para acabar com as rugas e com os pés de galinha, considerando que a toxina custa em média R$2,5 mil, quanto não poderia ser gasto com os pobres com bem menos? É por isso que nosso país tem quase um terço a população miserável (indivíduo que ganha menos de US$1 por dia).
A alta burguesia compra o inútil enquanto a baixa ralé nem o útil pode comprar.
Nós nos obrigamos a tantas manias que fica difícil descobrir o significado de algumas coisas. Por exemplos, qual a finalidade do esmalte. Penso, penso e penso, mas na conclusão, só fica a explicação que o esmalte serve para pintar nossas unhas. Se alguém vê um macaco com as garras cor-de-rosa, logo acha estraníssimo, já a mulher pode pintar as unhas como se isso fosse a coisa mais útil do mundo. Gastam com uma coisa que acaba em menos de cinco dias. Outro costume que me pergunto a prática é pintar o cabelo... Para quê?! E a tal da chapinha... hein? Alisar o cabelo para ficar parecido com quem tem os genes para tal, o que a pessoa sai ganhando com isso? O máximo que consegue é perder, em média, R$20 por sessão. Em uma academia vemos uma luta voraz pela manutenção dos músculos. Não é pela saúde, mas sim pela estética.
Por que valorizamos tanto os que têm músculos à mostra se suas idéias não sabemos quais são?
Afinal, o belo acaba. Já uma mente sã vive para sempre.

Terça-feira, Maio 18, 2004
Tempo Perdido - Legião Urbana
Todos os dias quando acordo,
Não tenho mais o tempo que passou
Mas tenho muito tempo:
Temos todo o tempo do mundo.
Todos os dias antes de dormir,
Lembro e esqueço como foi o dia:
"Sempre em frente,
Não temos tempo a perder."
Nosso suor sagrado
É bem mais belo que esse sangue amargo
E tão sério
E selvagem.
Veja o sol dessa manhã tão cinza:
A tempestade que chega é da cor dos teus olhos castanhos.
Então me abraça forte e me diz mais uma vez
Que já estamos distantes de tudo:
Temos nosso próprio tempo.
Não tenho medo do escuro, mas deixe as luzes acesas agora.
O que foi escondido é o que se escondeu
E o que foi prometido, ninguém prometeu.
Nem foi tempo perdido;
Somos tão jovens.

Quarta-feira, Maio 12, 2004
A coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela termina. Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está todo de trás pra frente. Nós deveríamos morrer primeiro, nos livrar logo disso. Daí viver num asilo, até ser chutado pra fora de lá por estar muito novo. Ganhar um relógio de ouro e ir trabalhar. Então você trabalha 40 anos até ficar novo o bastante para poder aproveitar sua aposentadoria. Aí você curte tudo, bebe bastante álcool, faz festas e se prepara pra faculdade. Você vai pro colégio, tem várias namoradas, vira criança, não tem nenhuma responsabilidade, se torna um bebezinho de colo, volta pro útero da mãe, passa seus últimos nove meses de vida flutuando... E termina tudo com um ótimo orgasmo! Não seria perfeito? - Charles Chaplin (link :
Todos os Sentidos)
Esse pensamento ilustra o post de hoje: a morte. Morrer é 'o fim da vida animal e vegetal'. Mas a morte não tem apenas esse significado, ao menos não tem a nós, seres humanos: animais de uma sentimentalidade questionável. Afinal, há início e fim da nossa vida? Se o princípio de nossa existência é tido como algo agradável, por que o desfecho não poderia ser prazeiroso?
O verdadeiro choque da morte está na imprevisibilidade que ela chega. Um jovem chamado Marcos Gabriel de 16 anos em São Paulo, foi morto há alguns dias por torcedores rivais de seu time. Ele sonhava em cursar direito, mas um bando de desocupados tirou a sua vida. Um adolescente que está 'começando' a viver com uma certa independência morre, o que ele fez, fez. O que não fez, nunca fará.
Está aí um dos principais medos que a morte causa: o de ter nossas experiências de vida cessadas. Não podemos viver tranqüilamente, pois não sabemos se daqui a três segundos ainda respiraremos. Se a morte vier, não há escapatória, as desculpas que deixamos de pedir, nunca serão ouvidas. As alegrias que não vivemos, não terão uma nova oportunidade de acontecer. O ódio que guardamos, não será compartilhado, ou esquecido. Pregam para que vivamos cada momento como se fosse o último. Mas não podemos nos preocupar apenas com o presente, o futuro está logo ali e precisamos pensar nele. A morte acaba com o futuro de um, mas arruina o de dezenas.
Dizem que só os velhos são os mais propícios a morrer. Quando um idoso chega aos seus 90, 95 anos de idade o que lhe resta fazer? Apenas esperar pela morte, esta aflição enlouquece qualquer um. Saber que mas dia menos dia, seu fim chegará.
Ainda há os que querem antecipar o próprio destino, os suicidas. Acabam com a própria vida por motivos mil. O namoro não deu certo, o dinheiro faltou, os pais morreram, sentimento de inutilidade na vida. Diversas razões tiram a vida de pessoas que pensam que não há mais saída para a sua angústia. Mas o que realmente leva tal indivíduo a pensar que sua vida é tão lastimável que o seu único destino é a morte? Por que optam em morrer sabendo que há milhares de doentes em filas hospitalares esperando um órgão para lhes se transplantado e assim, resgatar o valor de viver? A morte de um pode ser o início da vida de outras.
Outro medo que as pessoas têm a respeito da morte é quanto a sua seqüência. Há vida após a morte, ou ela é o derradeiro da existência do físico e da alma? Não temos essa resposta, e acredito que nunca teremos. Teremos mais dúvidas sobre essa a besta que nos tira desse plano, e nunca saberemos quando, ou de que forma ela chega. Como diria Raul Seixas:
Vou te encontrar/ Vestida de cetim/ Pois em qualquer
lugar/ Esperas só por mim/ E no teu beijo/ Provar o gosto estranho/ Que eu quero e não desejo/ Mas tenho que encontrar/ Vem/ Mas demore a chegar/ Eu te detesto e amo/ Morte, morte, morte que talvez/ Seja o segredo dessa vida - Canto Para Minha Morte